Syringe and pills on a white background isolated, close-up, copy space.
No Julho Amarelo, especialistas alertam sobre os riscos da hepatite medicamentosa causada por anabolizantes.
Uma doença que inflama e mata as células do fígado, e, em casos crônicos, leva a formação de fibrose, cirrose ou câncer, podendo ser necessário transplante para recuperação total do paciente. Essa é a hepatite, que pode ser causada por vírus, consumo de álcool, doenças autoimunes ou uso de medicamentos. A campanha Julho Amarelo reforça a conscientização sobre as hepatites virais, mas também chama atenção para casos de inflamação do fígado causados por medicamentos.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que cerca de 254 milhões de pessoas vivem com hepatite B crônica e aproximadamente 50 milhões com hepatite C em todo o mundo. Ainda segundo a entidade, em 2024, as hepatites B e C (responsáveis por 95% das mortes relacionadas às hepatites no mundo) causaram cerca de 1,34 milhão de mortes, principalmente em decorrência de cirrose e câncer de fígado.
Para isso, campanhas como o Julho Amarelo entram em campo com o objetivo de conscientizar sobre as hepatites, estimular a prevenção, a vacinação e o diagnóstico precoce de doenças que, muitas vezes, evoluem de forma silenciosa e podem provocar cirrose, câncer de fígado e até a necessidade de transplante.
Embora tenha como foco principal as hepatites causadas por vírus, há outro tipo de hepatite que também vem despertando preocupação: a hepatite medicamentosa. Nesse caso, o fígado sofre inflamações provocadas pelo uso de medicamentos e outras substâncias, entre elas os anabolizantes, o famoso suco.
Segundo o hepatologista Tibério Medeiros, do Hospital Santa Joana Recife, da Rede Américas, esse tipo de lesão tem se tornado cada vez mais frequente devido ao uso indiscriminado dessas substâncias para fins estéticos. “Os anabolizantes são hormônios sintéticos derivados da testosterona. Eles foram desenvolvidos para tratar doenças específicas, como o hipogonadismo, mas acabam sendo utilizados de forma inadequada para ganho de massa muscular e melhora do desempenho físico. Esse uso aumenta significativamente o risco de lesões hepáticas”, destaca.
Inflamação pode evoluir de forma silenciosa
O especialista explica que os anabolizantes podem comprometer o funcionamento do fígado. “Essas substâncias podem agredir diretamente as células do fígado, prejudicar seu funcionamento e dificultar a eliminação da bile. Quando essa agressão provoca inflamação, chamamos de hepatite medicamentosa, que nada mais é do que uma inflamação do fígado causada por um medicamento, nesse caso, o anabolizante”, alerta.
Assim como ocorre nas hepatites virais, os danos ao fígado nem sempre provocam sintomas logo no início. “O fígado muitas vezes sofre em silêncio. Mas alguns sinais podem aparecer na fase aguda, como fadiga excessiva, náuseas de início recente, dor no lado direito do abdômen, urina muito escura, fezes claras e pele ou olhos amarelados. Quando esses sintomas surgem após o uso de anabolizantes, é fundamental suspender imediatamente a substância e procurar atendimento médico”, explica Tibério.
Casos graves podem exigir transplante de fígado
Quando o diagnóstico demora ou o uso continua mesmo após o surgimento dos primeiros sintomas, as consequências podem ser graves. Segundo o hepatologista, alguns pacientes desenvolvem uma inflamação intensa que compromete completamente a função do órgão.
“Já vimos pacientes desenvolverem uma hepatite tão grave que o fígado deixa de funcionar. Chamamos isso de insuficiência hepática aguda ou hepatite fulminante. Se essa situação não for revertida, pode haver necessidade de transplante de fígado, e isso não é tão raro quanto as pessoas imaginam”, alerta.
Além das complicações agudas, o uso prolongado de anabolizantes também pode provocar lesões silenciosas. “Às vezes, não acontece um quadro agudo, mas um processo crônico. Essas substâncias podem favorecer o surgimento de adenomas, que são tumores benignos com potencial de malignização, além de aumentar significativamente o risco de câncer de fígado e de eventos vasculares”, afirma o especialista.
Prevenção passa por informação e uso consciente de medicamentos
Segundo o Ministério da Saúde, além da vacinação contra as hepatites A e B (disponível gratuitamente pelo SUS para os públicos indicados), medidas como o uso de preservativos, o não compartilhamento de objetos perfurocortantes, a testagem e o diagnóstico precoce são fundamentais para reduzir a transmissão das hepatites virais.
No caso da hepatite medicamentosa, o principal fator de prevenção é evitar a automedicação e o uso de hormônios sem indicação médica. “A melhor forma de evitar esse problema é não utilizar anabolizantes sem prescrição médica. Existem poucas situações em que essas medicações realmente são indicadas. Para quem busca ganho de massa muscular ou desempenho físico, o caminho mais rápido nem sempre é o mais seguro”, orienta Tibério.
O especialista também recomenda evitar suplementos de origem desconhecida e acompanhar periodicamente a função hepática por meio de exames, principalmente entre pessoas que utilizam medicamentos de forma contínua. “Ganhos estéticos ou de desempenho nunca justificam colocar a saúde em risco. Alimentação equilibrada, atividade física orientada, boa hidratação, sono adequado e acompanhamento com profissionais qualificados continuam sendo a forma mais segura e sustentável de cuidar da saúde”, reforça o especialista.
